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domingo, 6 de outubro de 2013

Orgulho de Ser Gaúcho, Porque Mesmo??



Hoje eu iria falar sobre o filme "Crash - Vivendo no Limite" (conforme a tradução para o português, feita pelos responsáveis pelo filme aqui no Brasil). Foi um filme que eu assisti há alguns anos atrás e do qual eu gostei muito, vindo a assisti-lo novamente recentemente. O filme vale um belo post e será comentado por mim aqui, porém conversando com minha esposa ontem, acabei mudando de ideia e resolvi usar este espaço para outro assunto, embora guarde uma estreita relação com o conteúdo que colocarei quando tratar sobre o filme.
Sou gaúcho, nasci e me criei aqui. Desde cedo, como é comum a grande maioria dos gaúchos, aprendi a gostar de nosso estado, do nosso povo, da nossa cultura. Quando estive embarcado como tripulante de um navio de cruzeiros, em algumas ocasiões esse gauchismo foi aflorado e fiquei cheio de orgulho, como da vez em que uma passageira, durante a temporada brasileira, me fez a pergunta se eu era gaúcho e quando respondi afirmativamente ela colocou que só podia ser, pois havia notado que eu era muito educado e esta era uma característica nossa. Também me diverti, novamente com uma boa dose de orgulho, quando em uma ocasião em que a grande maioria dos passageiros, ainda aqui em águas brasileiras, serem oriundos do Rio Grande do Sul e circularem pelas áreas do navio o tempo todo com seu "kit chimarrão" a tiracolo, deixarem  muito intrigados os tripulantes estrangeiros que não conseguiam entender porque aqueles brasileiros eram tão diferentes dos demais.
Pois bem cantamos a plenos pulmões "ah eu sou gaúcho", em estádios de futebol, em shows e em outras ocasiões, cometemos mesmo exageros como o de cantar o hino riograndense em cima do hino nacional, entre outras coisas. Agora, para aqueles que também são gaúchos, assim como eu, faço a pergunta - Nós somos mesmo tudo isso de bom que julgamos ser?
Há anos o nosso estado tem ficado para trás, nossos políticos não conseguem uma articulação e uma união mínima que seja para trazer mais verbas e melhorias para o estado. Tudo é dualizado, tudo é bipolarizado. O gremista quer mais é ridicularizar o colorado e vice-versa, ao passo que se esta rivalidade ficasse apenas nas quatro linhas, os dois clubes ganhariam infinitamente mais em ações conjuntas, mas somente a leve consideração deste hipótese serve para que muitos espumem raivosos pela boca e me defenestrem, me ataquem cheios de ira, sem dó, nem piedade. Há anos vivemos de uma passado que nem foi tão glorioso assim, pois se colocarmos a mão na consciência e o dedo na ferida, se formos mais sinceros e autocríticos ao analisarmos nossa maior comemoração - a semana farroupilha - lembrando os feitos, as façanhas que sirvam de modelo a toda terra, dos heróis farrapos, teremos que lembrar a atrocidade que foi cometida com os lanceiros negros ao término da revolução e sobre isso também pretendo refletir um pouco em post específico.
Vejam bem meus amigos ou se preferirem indiada buenaça que habita essas plagas. Ontem, sábado 05 de outubro de 2013, minha esposa e meu filhote foram, na companhia de mais alguns amigos, a capital "de todos os gaúchos", a famosa Porto já não tão Alegre há tempos, para participar da Marcha Para Jesus. Tá eu sei, é um evento bem família de fundo religioso e em tempos de outras marchas que rolam por aí, tenho a triste convicção de que muitos não gostam. Eu estava trabalhando e por este motivo não pude 
acompanhá-los. Ela combinou previamente o roteiro e a programação para o dia com os amigos que a acompanhariam na jornada (um jovem casal e sua bebêzinha de menos de um ano e uma amiga deste casal, que está atualmente grávida). Minha esposa e meu filho saíram de casa em Sapiranga, cidade distante cerca de uma hora e meia de carro de Porto Alegre. Pelo combinado passou em Novo Hamburgo, onde o restante do pequeno grupo mora e onde almoçaram antes de partirem até São Leopoldo. O planejamento incluiu deixar os carros na estação do Trensurb em São Leopoldo e de trem, deslocar-se até a estação mercado, já na capital. Assim foi feito. E assim, começaram a surgir todas as coisas que fizeram com que além de muito envergonhado (sentimento bem oposto ao de orgulho), me lançaram a uma reflexão sobre o tema e consequentemente a este post.
Já na chegada, o primeiro de uma série de problemas que seriam enfrentados. O Samuel (meu filho), que tem um ano e um mês, estava sendo conduzido em uma pequena motinho, do tipo que se encontra por aí para facilitar a locomoção a pé dos país junto com a criança. Funciona muito bem, ele adora e por horas a fio, vai passeando feliz da vida em sua motoquinha. Só que lá nesta estação, minha esposa disse que não haviam rampas de acesso e a única saída possível era via escada (com um bom número de degraus e relativamente ingrime, é preciso registrar). Mesmo com dificuldades, pode-se considerar sendo um problema menor, a menos, tenho certeza, que você seja um cadeirante. 
Ela e sua amiga estavam com dois bebês de colo e como é comum nestas ocasiões uma das preocupações é onde trocar a fralda dos pequenos. Pois vejam só, o mercado disponibilizava o sanitário feminino para este fim, no entanto, este ficava no segundo piso e adivinhem, elevador estragado, sem rampa de acesso e outra vez a unica saída foi a escada, convém lembrar que vale a mesma observação feita antes. Dificuldades a parte ao chegarem lá em cima e dirigirem-se ao dito sanitário, outra surpresa, fora de uso! Resumindo, neste caso, a unica opção era o banheiro de deficientes (que não sei como chegariam ao segundo piso nessas condições tão desfavoráveis, sem elevador e sem rampa de acesso), porém usar o banheiro que é destinado aos cadeirantes, estando este vago, não chega a ser o problema, já que o seu está quebrado, mas aí para fazer uso dele somente pagando. E aí não me interessa o valor, o espaço é público e não podemos admitir que tenhamos que pagar por um serviço essencial que deveria ser oferecido gratuitamente pela gloriosa prefeitura. Respira-se fundo, lembra-se do motivo do passeio e com a graça de Deus, deixemos de lado essas dificuldades e até aceitemos como atenuante o fato do mercado ter passado por um sinistro a alguns meses atrás. Nem vamos lembrar que em qualquer país sério, administrado por governantes competentes uma solução melhor para a população já teria sido encontrada, e esqueçamos a questão da estação mercado que lá não houve nenhum incidente ou qualquer coisa do tipo.
Correu tudo relativamente bem durante a marcha, principalmente levando-se em conta o grande número de participantes.
Hora da volta e também da maior revolta. O Samuel é um bebê de colo ainda. Com a graça de Deus, é um meninão saudável, grande, pesadinho e por isso a motinho é nossa grande aliada nos passeios que incluem caminhadas com ele. Só que, obviamente, ele também cansa e acaba enjoando de ficar tanto tempo nela, consequentemente começa a choramingar e pedir colo. Por sorte já estava na hora de ir embora e uma vez no trem na viagem de volta, o melhor exemplo da tão exaltada educação do povo gaúcho. O trem estava cheio (não chegava a estar lotado), não haviam mais acentos disponíveis e algumas pessoas tiveram que viajar em pé. Incluindo minha esposa, que tentou de todas as maneiras convencer o pequeno Samuel a permanecer sentadinho em sua moto, mas foi em vão. O pequeno queria colo de todo o jeito e para piorar mais ainda a situação, começava a bater o sono naquele corpinho e só nós, os pais dele, sabemos como ele gosta de aninhar-se em nossos braços, repousar sua cabecinha no ombro do que estiver o carregando e tirar uma bela soneca (e Deus como isso é bom, como um momento como esse faz a vida valer). Para mim, por questões físicas, é mais fácil do que para minha esposa, mas ela teve que matar no peito e aguentar a situação. Ela observou que em um banco havia uma criança pequena aparentando uns 4 ou 5 anos, ao lado de uma mulher, que talvez fosse sua mãe. A etiqueta de bom convívio social recomendaria que esta mulher colocasse sua pequena no colo e oferecesse o banco para a minha esposa. Nem de longe a mulher considerou esta ideia e ignorou por completo a minha esposa com dificuldades com o meu filho no colo. Isso até entrar uma senhora idosa em uma estação mais para a frente e solicitar o banco, alegando que ela podia colocar a criança no seu colo e que, e isto é a mais pura verdade, há inclusive um estatuto (desrespeitado a toda hora) que torna isso lei. Começou um bate bocas, onde eu fico pensando que bela educação que temos mesmo, nós gaúchos, e que ótimo exemplo damos para aqueles que estamos criando. Que futuro mais maravilhoso aguarda este estado cada vez mais decadente. A criança ali acompanhando a adulta que lhe conduzia bater boca com uma pessoa mais velha sem entender direito o que estava se passando. Aí, neste momento, como forma de argumentação e muito mais para negar a senhora o direito de sentar, a mulher apontou para minha esposa com meu filho no colo e disse que se tivesse que dar lugar daria para ela. A referida senhora, por sua vez, também um ícone gaúcho de experiência, sabedoria, sensatez e educação, discordou fortemente e bem...
Acabou que a moça grávida que fazia parte do pequeno grupo, havia conseguido, por pura sorte e oportunismo, um lugar para sentar e foi ela quem, vendo que minha esposa já estava a ponto de largar meu filho de volta em sua motinho e tolerar seu choro, cedeu o espaço, o lugar para eles sentarem.
Resumindo, lamentável, muito lamentável mesmo e sei que isso é só um pequeno, mas bem ínfimo mesmo exemplo de como se porta este povo que adora gritar aos quatro cantos do país e até fora dele, cheio de orgulho que é gaúcho. Gentileza, meus amigos, é apenas o reflexo natural de todos aqueles que tem educação. Nunca vi pessoa educada que não fosse gentil, que não fosse solidária. Lembro muito bem de minha mãe sempre me dizendo para dar meu lugar para as pessoas mais velhas, para as mulheres com crianças no colo... Hoje, não tenho mesmo, absolutamente nenhuma dúvida, somos uma espécie em extinção e para piorar eu estou me tornando a pessoa mais velha e o futuro que visualizo daqui não é nada animador. Nem para mim, nem, infelizmente, para meu filho.
Resta-me educar meu filho sobre os mesmos princípios que minha mãe fez comigo. "Filho sempre dê lugar para as pessoas mais velhas, para as mulheres com crianças no colo". "Filho sempre respeite os mais velhos". Sabe filho, teve um tempo em que o pai gritava com todo orgulho - "Ah, eu sou gaúcho"
Uma ótima semana a todos, fiquem com Deus, até a próxima.

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